quinta-feira, 9 de julho de 2015

Heike

A Heike surgiu na minha vida como um furacão.
Tem uma namorada, a Stefanie.
Vivem as duas em Nuremberga, têm um café adorável.
A Heike veio sozinha a Lisboa, por meia dúzia de dias. O objectivo dela era ir um mês para Odemira, fazer voluntariado numa quinta de criação de burros, de uns Alemães.
Quando a conheci foi amor à primeira vista. Estivemos juntos todos os dias. Ora para enviar flores para a outra - com quem não vou muito à bola, ora para cafezarmos, ora para enviar a tralha dela para Nuremberga, porque ela já tinha comprado muitas coisas em Lisboa.
Nunca tinha vindo a Portugal. Aliás, como muitos me dizem, chegam ali a Espanha e não há nada que os impele a continuar em direcção ao Atlântico. E quando cá chegam, arrependem-se de nunca ter continuado até ao Atlântico. E arrependem-se muito por comparação com Espanha.
Pois a Heike rumou ao Alentejo.
Ao final dos primeiros dias começo a notar nas mensagens dela, algum desconforto.
Começo a notar rapidez nas mensagens. Começo a notar evasão. E ausência.
Até que, semana e meia após, me liga em aflição e conta:
" Estou a fugir da quinta de burros, estava a ser explorada por Alemães -ainda acrescentou que só com Alemães isto aconteceria - eu era uma escrava, mal podia comer, dormia no palheiro, que não podia parar de trabalhar para descansar, controlavam-me o telemóvel...."
Quando ela chega a minha casa e me conta ao vivo a história toda, sinto que continua a encobrir. A relativizar. A minorar. A brincar.
É a postura dela na vida. E foi isso que gostei dela.
Falamos como facilmente somos dominados psicologicamente pelos outros se somos fracos e nos deixamos ir. Como muitas vezes nem damos conta que estamos a ser dominados. Ou como muitas vezes gostamos de ser dominados por conforto, interesse, questões culturais, religiosas, ou bases educacionais ou de má formação de carácter.
E ela sorria sempre.
Voltou para o Alentejo, antes foi para uma escola de surf de raparigas na Ericeira ( a Heike tem 60 anos), e apaixonou-se por Portugal e pela Costa Vicentina.
Tanto que para a semana chega, pela segunda vez em Portugal, para comprar uma casa. Em Odemira. Onde tudo aconteceu.
Isto é que é espírito.

4 comentários:

  1. Há pessoas incríveis e esta é, claramente, uma delas. Mas ser explorada? Isso é desumano!!

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    1. Explorada sim. Uma mulher independente com 60 anos, vê-se de repente no meio do nada, sozinha, com um casal de Alemães a forçarem-na a trabalhar. Uma coisa é voluntariado, outra é trabalha senão não comes....

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  2. Parece mesmo ser uma pessoa incrível. Qto a Portugal, eu sou testemunha disto ... uma terra maravilhosa e só não conhece quem tem preconceito ... Não dá para comparar com a Espanha ... Sou muito mais Portugal ... me desculpem os espanhóis ...

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